Recordar é viver. E o personagem Robin Hood faz parte do meu, e do imaginário infantil de muitas pessoas. Esse “herói” mítico inglês, faz parte não só da cultura inglesa, mas da mundial. Socializado para o mundo através de filmes, desenhos e outras publicações, Robin Hood continua povoando o nosso pensamento.
Relatos diversos sugerem que Robin era mais do que apenas um fora-da-lei que vagueava pelas florestas. Os mesmos relatos nos informam que Robin pela liberdade. Segundo nos conta a história, Robin era filho do Barão de Locksley e viajava com o Rei Ricardo Coração de Leão para catequizar os hereges, e durante esta cruzada foi feito prisioneiro. Conseguindo fugir, retorna à Inglaterra, e percebe que John, o segundo herdeiro direto assume o trono no lugar de Ricardo Coração de Leão, mata o pai de Robin, aumenta os impostos e destrói o castelo onde Robin morava. Por força das circunstâncias, passa a morar na floresta de Sherwood, onde lidera um grupo de homens em uma investida contra o príncipe John. Nesse ínterim, Robin atuava como saqueador em “parceria”com João Pequeno e Frei Tuck, para ajudar aos que se tornaram pobres por causa da ganância de John e lutava para reaver sua posição nobre. Como resultado da investida de Robin contra John, o grupo liderado por Robin, vence, ele casa-se com Maid Marian, e com o retorno do Rei Ricardo Coração de Leão, é nomeado cavaleiro recuperando assim sua nobreza.
Não existem comprovações históricas de que Robin Hood realmente existiu. Mas isso não nos impede de aproveitar sua “estória” para extrair algumas reflexões relevantes para o mundo em que vivemos hoje. Fato é que, ser Robin Hood, hoje não é um privilégio de poucos. Não é mais uma aventura épica com pequenas participações populares. Hoje vivemos em uma sociedade em rede. Conforme afirma Castells (2007, p.566), “redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmo códigos códigos de comunicação (por exemplo valores, ou objetivos de desempenho).” Pode-se citar como exemplos de valores, fundamentais em qualquer época, mas principalmente em evidência hoje, liberdade e acessibilidade econômica. Assim como as batalhas por liberdade e “justiça”capitaneadas por Robin e sua trupe, aconteciam logicamente em um local, enquanto que as batalhas contemporâneas, hoje acontecem em um lugar virtual, denominado por Lévy (1999, p.92) como ciberespaço. Segundo ele, o ciberespaço é o “espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores.”
Tendo estabelecido esses conceitos, podemos afirmar que muito do que fazemos hoje, o fazemos em rede, e através do ciberespaço. Um dos principais meios de acesso ao ciberespaço é a internet, a interconexão mundial de computadores. Dentro deste universo de ferramentas e aplicações virtuais, e por isso intangíveis, existem diversos meios comunicação que viabilizam a sociedade em rede.
É importante salientar que as ações executadas no ciberespaço refletem diretamente no universo físico. Meios que utilizamos apenas para entretenimento como blogs, redes sociais, widgets, sites, wikis e outros meios também podem ter uma conotação política não-partidária (ou partidária, se preferir). Robin Hood utilizava arco e flechas para alcançar os objetivos de liberdade em sua época. Era o que havia de disponível. Hoje a miríade de informações, aplicações, e ferramentas disponíveis talvez nos deixem admirados de como utilizar tudo isso de forma relevante. Mas hoje, temos um alcance de comunicação jamais obtido por gerações anteriores. Falamos não para dez pessoas, mas para milhões.
Atualmente temos muitos meios para nos divertir na web. Vídeos, fotos, jogos on-line e tudo mais funciona diretamente, tornando sistemas operacionais e aplicativos que usamos cada vez mais irrelevantes. O mundo está se tornando cada vez mais cross plataform. Cada vez mais open. Cada vez mais free. A questão é que existem “príncipes John”, como na história de Robin Hood, que são gananciosos tentam atravancar o caminho natural do progresso. Ao fazerem isso, donos de grandes grupos de comunicação, grandes empresas e personalidades, não somente prejudicam a nós cidadãos (e consumidores, é claro!), mas a si próprios. Algumas atitudes como as referentes a música e o direito autoral, a software e suas licenças e outros temas correlatos tem revelado uma visão estreita de mercado. O problema disso é que esse modelo de abordagem mercadológica, não é sustentável; ou seja, é como tentar gerir um sistema linear finito; infinitamente. Simplesmente não funciona. É um modelo: a “indústria” ganha e o consumidor “perde”. Existem órgãos e personalidades que objetivam restringir diversas ações na internet que afetam a diretamente a sua essência: a liberdade. A internet foi construída em protocolos livres, abertos, sua característica relacional também se faz dessa forma, como um sistema homeostático que se auto-regula com o ambiente. Esse ambiente auto-regulatório funciona, de forma geral, muito bem.
Em grande parte das notícias que acesso na web, muitas descrevem apenas o lamento de empresas e personalidades por modelos de negócios que insistem em existir, mesmo não funcionando mais. Comunidades e algumas poucas empresas já perceberam isso. É como se Robin Hood avisasse a grande indústria: “- Olha, vocês tem a estrutura, muito dinheiro, mas são inadequados. Vocês não vão resistir!”. Sua história ilustra bem esse exemplo. John toma o reino de Ricardo Coração de Leão. Destrói o castelo e mata o pai de Robin. Vemos que Robin une-se a uma comunidade, injustiçada por John. E os lidera contra John. O que é este exemplo senão uma grande analogia do que acontece na internet?
Um exemplo pessoal foi quando participei do abaixo-assinado pelo fim da CPMF. Participei pela internet e vi pela televisão vários carrinhos de supermercado cheios de assinaturas entrando em Brasília. Fim da CPMF! E eu participei disso. Temos armas: Blogs, Wikis, Vídeos, Imagens, Redes Sociais, e muitas mais. Temos comunidades: Movimento Música Pra Baixar (MPB), Movimento Software Livre e várias outras iniciativas. Falta-nos consciência de que mesmo que acessemos pouco a internet, ou que dependamos pouco dela, as ações executadas no ciberespaço ecoam na sociedade civil. Afetam minha possibilidade de exercer ou não cidadania. A discussão de direitos autorais é uma discussão minha e sua, não apenas de que trabalha com música. A discussão sobre software livre e adoção de formatos abertos não é apenas uma discussão minha; mas de todos. O resultado das discussões na internet transcendem-na. Afeta-nos. Ciberativismo é ativismo social.
Referências:
ROBIN Hood. In: Wikipédia: A enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Robin_Hood> . Acesso em 02 jan. 2010.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999, p.92.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Paz e Terra, 2007, p.566.
Publicado na Revista Espírito Livre nº 10, com o título modificado para esta postagem.
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